O Haiti não é lá

A pedidos do meu amigo Dr. João Paulo Freitas, vou fazer uma rápida interrupção no Especial Copa 2010. Mas o motivo é nobre. Chamou a atenção do Dr. Freitas a questão do amistoso do Brasil no Zimbabwe.

Sem qualquer motivação política – como foi o jogo no Haiti, em 2004 – ou financeira – que levou a seleção brasileira à Omã, no ano passado – esse jogo no Zimbabwe pode ser um grande mico para a CBF.

Desde 1988, o país vive sob o comando de Robert Mugabe, considerado ditador e bárbaro pela opinião mundial. O “curríuculo” de Mugabe tem desde fraudes confirmadas em eleições até suspeitas de envolvimento em assassinatos e agressões a adversários políticos. Nada que a gente nunca tenha visto por aqui, é verdade.

A diferença – brutal – estão nos alarmantes dados demográficos do país africano: mais de 80% da população vive na miséria (esse percentual de pessoas ganha menos do que R$ 4 por dia!); 94% da população não tem emprego formal; 45% é considerada desnutrida e 3 mil pessoas morrem de AIDS toda semana (!).

É claro que a situação da população do Zimbabwe é comovente. Mas, realizar o jogo lá, em vez de na África do Sul, pode ter uma conotação completamente inversa da que a CBF espera.

O Conselho de Segurança da ONU acaba de condenar o  segundo turno das eleições, nesta sexta. Uma eleição que já foi fraudada por Mugabe em 2008 e o obrigou a dividir o poder com Tsivangirai, que tornou-se primeiro-ministro e tenta recuperar o prestígio do Zimbabwe com a comunidade internacional.

A dúvida é: o jogo da seleção brasileira reforça a posição de Tsivangirai ou dá louros a Mugabe? Uma dúvida que não precisava existir. Especialmente às vésperas da Copa do Mundo.